Até Setembro
Terça-feira, Julho 7, 2009

Pois tenho a(s) casa(s) toda(s) desarrumada(s) e abandonada(s)…
Faço um ponto final (mas não parágrafo) porque, de facto, é injusto (?) esperarem uma coisa que agora não consigo dar.
Continuo sem dizer adeus (teimosa, eu) mas estou assim como este “televisor”.
Entretanto, deste lado teremos as minhas aventuras nas letras que tentam fazer sentido (é só olhar para os separadores e fazerem de conta que são histórias em progresso).
Por aqui fica no limbo… esperando dias menos cansados.
Obrigada por me visitarem.
Voltem só em Setembro, ok? Não prevejo que antes coloque aqui mais nada!
beijos a todos
versão masoquéquequeresmeianoite
Quarta-feira, Julho 1, 2009
Digam lá se conseguiriam resistir a estes olhos?
(por esta altura quem não me conhece e aqui veio parar googlando “maus tratos em animais” está simultaneamente a escrever um ofício para a SPDA…)
entretanto tenho que ir afugentar a vizinha/fã n.º 1 do Tony Carreira porque me bate à porta, de cigarro em punho, rolos na cabeça, creme na cara perguntando-me o que se passa com o bichano
Sabeis o que é?
Ainda não sabem o que é?
E agora?
Termino desvendando um segredo… ou vários
Tenho uma gravata
Quarta-feira, Julho 1, 2009
Na verdade tenho três!
Mas hoje coloquei uma. É gira. Aliás, são as três giras.
Também tenhos lenços – só dois. Tinha um muito giro mas que queimei com o cigarro. (vá, digam lá que é bem feito!)
E ganchos. Com borboletas e isso.
E uso isto tudo (não ao mesm tempo!)
Olhei-me no espelho e disse: Estás gira, hoje.
As minhas mui abençoadas crias corroboraram.
Sozinha mais tarde procurei por ti… tu que me dizes que não sou, nunca fui nem nunca serei gira. Que me empurras para baixo e me angustias. Ah, encontrei-te! Olho-te nos olhos, agarro-te pelos cornos
- Já não mandas tanto em mim.
Olhas-me com olhos azuis bebés muito abertos. Sorris como se fosses dizer qualquer coisa mas parto-te os dentes todos. Só se vê a lingua verde.
- Eu sei que ainda vens cá de vez em quando… mas não moras cá.
Falaste-me com voz de mesa de madeira. Já não percebo o que dizes.
- Volta noutro dia, está bem? Hoje estou gira.
———————————————-
Página: I’m wiser
Tu
Quarta-feira, Julho 1, 2009
Tens três fileiras de dentes terríveis… vermelhos e vorazes.
Conheces-me desde sempre, pensava eu. Mas não conheces, sabes? Não conheces. Não te pertenço.
Como é que apareceste? Não me lembro… Como é que ficaste assim tão forte? Também não sei. Não sei muito sobre Ti. Mas conheço o mal que me fazes. Conheço os sentimentos que me trazes.
E no entanto não Te culpo. Fizeste-me crescer. De uma maneira horrível, tremenda, tenebrosa, fizeste-me ultrapassar-Te, vencer-Te, ou, em alturas mais fracas, apenas ignorar-Te.
Porque me procuras?
Porque tiveste tanto interesse em mim?
Parto-Te os dentes outra vez. Já cá entraste hoje. Mas recuso-Te. Recuso-Te. Recuso-Te.
I rise up and destroy you. I rise up and shout I’m not yours!
I rise up and endlessly sing that I am bolder
I’m wiser
I AM BETTER!
Não Te mando mais embora. Encurralo-Te de modo a que fiques onde Te veja. Para que não fujas, não conspires, não me invadas.
Hoje não estou gira
Eu SOU gira.
————————————————————
Página: I’m Wiser
Taberna
Quarta-feira, Julho 1, 2009
Cumpro a promessa?
Faço um desvio na promessa, isso sim. Depois do Cara de Cu se ir embora, resmungando um até amanhã indecifrável, não soubesse eu que era o que me dizia todos os dias que havia levantamentos, arrumo as minhas pás e saio do cemitério.
Não gosta de nada, detesta os levantamentos. Eu? É a parte final de um trabalho sem fim.
Vejo as pessoas que mudam. É verdade, sim. Conheço-as. Quando as conheço.
Muitos Caras de Cu e Filhos do diabo são levantados assim, tendo por companhia o coveiro e o representante resmungão da Câmara. Outros têm advogados cheirosos, executantes das heranças. Lembro-me da de ontem. Era menina quando lhe enterrei o pai. Esteve calada, séria, nem uma lágrima lhe vi. Veio sozinha, mulher feita. Puxei-a à parte antes do Cara de Cu chegar – diz-me que não tenho estudos, que a minha tarefa é cavar, que não posso e não devo falar com os familiares – e avisei-a. O seu pai não está pronto, menina. Não olhe. A menina-mulher agradece-me com o olhar, sabe do que falo apesar da leve interrogação no olhar.
Saio do autocarro. Afinal não era o meu mas o que vinha em sentido contrário e o condutor, amiguinho como é, decide parar também, tentar ajudá-lo. Ou isso ou é aquela estúpida camaradagem de colegas de trabalho. O que vale é que trabalho apenas com o meu querido Cara de Cu. A esse, levo-o sempre pelos caminhos melhores, cheios de lama, para que suje as belas calças vincadas. Já pensei no que faria caso caísse numa das covas.
O autocarro fica para ali encostado e decido ir à taberna de beira da estrada. Vejo os passageiros do outro, um casal de namorados, uma senhora bem vestida, duas ciganas carregadas de sacos, uma mãe com dois filhos irrequietos, um mecânico (devia ser, pelo fato macaco que trazia), três estudantes alemães e mais uns quantos que não saíram do autocarro, com medo que aquela má redondeza os comesse. Mas que raio de sítio este para o autocarro avariar!
Desviei-me da minha promessa?
Deveria ter lido e destruído.
E é o que vou fazer. Apenas não no cemitério. Vou a Carcavelos, à praia de Carcavelos. Sento-me na areia, leio a carta, rasgo-a e deito os restos na água juntamente com o pó da margarida.
Entro na taberna e inalo com gosto o cheiro maduro e bolorento do vinho nas pipas, enormes, deitadas atrás do balcão.
Peço um copo de três tinto, pago e sento-me num banco comprido, de madeira velha, suja e negra do vinho derramado.
Depois de o tomar de uma só vez, tiro o saco do bolso de dentro do casaco. Aliso-o e vejo de novo a letra feminina, redonda e perfeita
Carcavelos, 1980.
Mulher bonita. Pequena, roliça, saia travada, lábios vermelhos. Lágrimas que escorrem sem as segurar, soluço contido, sem dignidade.
Veio sempre às sextas-feiras.
Só às sextas-feiras.
Todas as sextas-feiras.
Na última avisei-a – vejam – que o levantamento estava marcado para a sexta-feira seguinte.
- Obrigada. Até sempre.
Hoje percebi o que queria dizer. Não veio.
Aliso o plástico, remexo no pó, enclausurado.
Porque não veio ela hoje?
A taberneira avisa-me que o autocarro está pronto a partir. Agradeço e saio. Tome cuidado, disse-me por entre benzimentos, roçando no sinal purulento na face. Está a ver o céu? Olho para onde aponta, por trás da serra do Monsanto, magnífica. Um raio de sol rompia no meio das nuvens, dando uma tez vermelha ao céu.
- Coisa boa não se anuncia, cruzes canhoto.
- Não tenha medo, Senhora. Sou eu que encomendo as almas ao inferno e hoje não é o seu dia.
——————————————
Página: Carcavelos
Paula
Quarta-feira, Julho 1, 2009
Um dia conheci-a. Triste. Olhos mortiços.
Fui apanhada na curva da vida, dizia-me.
Ao contrário da minha própria mãe, por exemplo, vi-lhe quase sempre uma expressão alegre, voluntariosa. Amava os filhos e o marido, amava a vida e o que vivia… ou assim pensava eu.
A filha era minha conhecida. Conhecida porque não a considerava bem minha amiga. Era caprichosa. E mimada. Achava eu.
Um dia, tinha perto de quinze anos, fui lá a casa. Gostava da D. Paula eu.
A filha não estava.
Gostava de mim a D. Paula. Achou-me uma mulherzinha e deu-se, nesse dia, por entre chávenas de chá, a minha primeira conversa de mulherzinha.
Não nasci para ter marido, atirou assim. Nem filhos. Nasci para viver sozinha, para estar sozinha.
Casar, ter os meus filhos, contentar-me com um emprego de porcaria, uma vida de porcaria. Foi um erro. Foi tudo um erro.
E sabes o pior? Criei dois monstros! Criei um marido que se acha o melhor. Porquê? Porque lhe digo isso todos os dias. Os meus filhos? Porque os amo mais que tudo, mais que a vida. Porque os convenço que somos todos maravilhosos. E quem me convence a mim? Quem me diz que sou boa? Ninguém. Porque não sou, sabes.
Fiquei estarrecida. Tanta confiança me demonstrava. A mim, sempre tão medrosa e insegura e estupidamente modesta.
Não me olhes assim minha querida, vendo-me de chávena parada no ar. É verdade. Construo a mentira para todos e sou muito convincente nisso.
A verdade, minha querida, é que não nasci para ser casada. Não nasci para ser mãe. Não nasci para viver com gente.
Eu merecia uma vida melhor. Eu merecia um marido melhor e uns filhos melhores.
Mas também os meus filhos e o meu marido mereciam alguém melhor.
A conversa não acabou com grandes conselhos sobre a minha vida ou o meu futuro, porque não tinha nenhuns.
Apenas foi a minha primeira conversa de cozinha… de mulherzinha. De um mundo que não conhecia. O da mentira piedosa. Da mentira que às vezes as mães, mulheres, heroínas, vencidas da vida, recorrem. Daquelas tão profundas, sabem?, que descobrimos que não podemos contar a ninguém. Sem querer, tornei-me amiga daquela colega – confesso – para poder estar mais próxima da D. Paula. E depois confesso também , tornei-me mis atenta s suas reacções. E vi-lhe, depois, só depois de já saber, tantas vezes os olhos trites que disfarçava sob o cansaço. O sorriso que escondia as lágrimas, o carinho solitário.
Um dia ganhei coragem e perguntei-lhe porque não se desfazia daquilo tudo? Porque não procurava uma vida melhor, que tinha direito, sabe?
Sei, minha querida, claro que sei. E sei também que não conseguiria. Esta casa, apesar de não saber, precisa de mim. Fui eu que criei esta situação. Fui eu.
E, depois, minha querida, se apenas por um dia, um minuto, alguém descobrir que eu sou miseravelmente infeliz, se alguém sequer desconfiar, vai tornar inútil todo estes anos de fingimento e de dor atroz, não achas?
Concordei com ela.
De todos os que me afastei quando mudei de casa foi a D. Paula de quem senti mais falta.
Convidei-a para o meu casamento e fui a única que percebi porque chorou tanto. E não disse a ninguém.
Porque conto isto hoje?
Porque ela mudou-se de terra, o marido deixou-a, disse que achou alguém mais novo mas não melhor, os filhos estão também casados e cada um com a sua vida,
ela?
Disse-me que estava sozinha, de olhos sorridentes. Finalmente sozinha… e foram as palavras mais felizes que lhe ouvi alguma vez dizer.
Porque o nome é inventado.
Porque lhe pedi.
Podes escrever sim. Mas não te preocupes, disse-me. A minha história é tão mirabolante que ninguém acreditará nela. Dirão todos que é mais uma daquelas tuas histórias.
——————————————————-
Página: Wouddabe
Tejo
Quarta-feira, Julho 1, 2009
Do seu quarto ouvia os vendedores passarem.
Acordava sempre primeiro que todos e ficava uns momentos a esticar os ossos, feliz, muito feliz. Tinha, como sempre, um longo dia pela frente.
Como os Senhores não estavam, teria tempo para fazer o que há muito queria: seguir a larga Avenida até ao fim. Disseram-lhe que lá estaria o Rio. Tejo, disseram-lhe.
Na cozinha fez café.
- Bom dia, Maria José.
- Bom dia, minha senhora.
Sentaram-se as duas na grande mesa de madeira onde repousava o alguidar com a massa para o pão, o cesto da fruta e o jarro de vinho tapado com o belo naperon.
- D. Quinita… depois ensina-me a fazer estes naperons? São lindos.
A mulher riu-se. Gostava muito desta menina que lhe tinha aparecido porta dentro. Da sua alegria e traquinice. Cantava o dia todo, mesmo quando tinha que fazer os trabalhos mais duros.
O gato Chico pulou para o colo dela.
- Esse gato! Nunca o vi aproximar-se de ninguém. É arisco e mal disposto com toda a gente.
- Somos iguais, Senhora. Ele e eu.
- Selvagens? – rindo.
- Feios. – fez uma festa no focinho do bicho percorrendo com um dedo uma grande cicatriz, feia e disforme. O rabo, cortado por um cão malvado, acabava num nó esquisito.
Saiu da casa com o recado da D. Quinita de comprar peixe na Ribeira.
- Não te preocupes, menina. Vês logo os pescadores e as peixeiras.
Habituada como estava a grandes caminhadas foi de ânimo leve que se pôs ao caminho. Tirou dois tomates directamente do tomateiro e colocou-os cuidadosamente no bolso do avental. Com o lenço – o seu maior tesouro, comprado ao pitrolino com o seu primeiro dinheiro – fez um nó na cabeça e seguiu, cantando.
E, pareceu-lhe de repente, estava em frente ao Rio. Tejo, disseram-lhe.
Os miúdos brincavam na escadaria onde as ondas pequeninas batiam. Atiravam água uns aos outros e os mais afoitos atiravam-se do cais com grande gritaria. Incapaz de resistir tirou as socas e desceu os três degraus até a água lhe tocar nos dedos. As saias ficaram molhadas com uma onda maior mas não se importou.
E se eu fosse assim? E se tivesse nascido aqui e não naquele buraco imundo, seco e árido. Poderia ter vindo para aqui brincar como eles?
O som dos pescadores e das peixeiras chegou-lhe aos ouvidos. Sem medo, aproximou-se e procurou quem lhe parecesse de confiança. Um rapaz andava por ali tirando caixas de peixe que ainda saltavam equilibrando-se entre a chata e a doca para depois os colocar nas canastras das peixeiras. Aquelas depois de cheias eram diligentemente colocadas na cabeça das peixeiras que seguiam o seu caminho como se fossem artistas de circo, como Maria José tinha visto neste último Natal.
- Olha, olha! – disse o rapaz quando a viu – temos petinga nova!
As peixeiras riram.
- Olha! E é maneirinha como tu gostas, ó Zé.
Percebeu que era de si mas não fazia ideia das insinuações que fizeram.
- Quero comprar sardinhas. – enquanto o olhava. Este Zé tinha uma grande cicatriz que lhe atravessava a face, ainda mais escura que o resto da pele, torcida e negra pelo Sol com os uns olhos verdes de cor roubada ao Rio.
- Tenho aqui a mais vivinha, menina! Traga cá a sua canastra! – Zé ficou impressionado por Maria José não ter desviado os olhos. Não sabia, ela, destas lides da timidez e recolhimento femininos. Não sabia corar. Não sabia – nunca saberia – baixar os olhos.
- Não tenho canastra.
Deolinda era a casamenteira da Ribeira. Era mais que isso como viria a saber. Reparou nestes dois jovens e ofereceu-se para vender uma. As mãos gordas da Deolinda tentaram alcançar o lenço de Maria José para lhe mostrar como se fazia o farrapo mas esta esquivou-se com um não sonoro.
- Este não, senhora!
- E é arisca, Zé! É arisca. Pois não consegues levar a canastra sem farrapo, menina!
- Vocemessê não se preocupe. – arrancou uma das suas saias (a de baixo era já muito velha) e rapidamente imitou o gesto que tinha visto uma peixeira fazer.
O riso espantado de Deolinda deu-lhe a certeza que tinha feito bem e depois de entregar o dinheiro ao Zé pescador ficou parada a olhar para a canastra.
- Vem cá, pequena! Eu mostro-te como se faz. Por agora seguras com as duas mãos. Daqui a uns tempos até parir com a canastra na cabeça consegues!
Depois de agradecer seguiu o seu caminho devagar. Era difícil de equilibrar e o farrapo escorregava na seda do lenço.
- Esta é que te dava jeito, Zé! – ouviu ainda dizer.
- … sim, sim. Ainda a domestico, Mãe Linda, Vai ver…
Ouvi-os rirem-se os dois.
Ou eu a ti, pescador.
—————————————-
Página: Olhos Castanhos
O Tó
Quarta-feira, Julho 1, 2009
Era a única fruta a que não resistia. Saltava os muros, rastejava por baixo dos portões e apanhava os mais redondos e vermelhos.
Soube mais tarde que se chamavam tomates e que não eram considerados frutos mas continuaram a ser o seu fruto favorito.
Gostava deles maduros. Trincava-os e depois sugava o sumo delicioso sem perder uma única gota.
Na casa do Senhor havia frutos exóticos enviados das terras do ultramar com cores vivas e cheiros intensos mas ela continuava a escolher o tomate.
Quando conseguiu ter uma casa e um espacinho de terra palmilhou-o todo, cuidadosamente, de manhã, à tarde e à noite. Viu onde batia mais o Sol, onde estava mais sombra, onde o vento não chegava. Escolheu um cantinho logo à direita da escada que lhe serviria de solar, onde embalaria os filhos, onde passaria muitas e longas tardes fazendo costura, crochet ou simplesmente acariciando um gato. Iria ter um gato, decidiu.
Pegou no tomate e comeu-o com ar cerimonioso. Retirou as sementes e colocou-as no cantinho de terra escolhido.
Cresce, meu menino. Cresce. – sussurrou.
Ao lado colocou o tanque novinho em folha, de costas para o portão, para as vizinhas ao passarem não vissem a roupa que lavasse. Acreditava que a roupa com mau olhado era muito perigoso e as roupas belas dos doutores que lavava era muito preciosa.
Plantou também salsa, coentros, couve, nabos, morangos e outras coisas, tudo à volta do limoeiro que já lá estava, tudo do lado direito.
Do lado esquerdo construiu um pequeno galinheiro.
O gato encontrou-o na rua, abandonado e sujo. Levou-o para casa, deu-lhe banho com muito sabão azul e branco. O que é bom para a roupa das senhoras é bom para ti… Chico. Já nessa noite o Chico dormiu aos pés da cama, por cima do raminho de eucalipto queimado colocado debaixo do colchão, para protecção da casa.
O Tó cresceu. Deu tomates, primeiro pequenos, depois grandes, carnudos e suculentos. Deu tomates durante muitos anos.
O Chico e o Tó foram companheiros fiéis.
Os seus companheiros.
—————————————————
Página: Olhos Castanhos
Só de nome
Quarta-feira, Julho 1, 2009
A festa era ruidosa., como se quer de uma festa, certo?
Foi para a pista dançar e não se importou de o fazer sozinha. Gostava de estar sozinha. Mesmo ali, no meio de tanta gente, entre empurrões de movimentos maiores que o espaço permitia, mesmo ali com o barulho ensurdecedor ela sentiu-se sozinha.
E gostou.
A Clara chama-a para uma bebida.
Entre gritos consegue explicar que quer apenas uma coca-cola. Só uma coca-cola, sem mais nada.
Recorda que os tempos seguintes àquele dia não foram pacíficos. Muita tristeza, amargura, ódio e choro. Muito choro.
- Minha querida – dizia-lhe a mãe – chora o que quiseres, enquanto quiseres. Grita a raiva que tens dentro de ti enquanto precisares. Toma um chá. Esta erva acalma.
E lentamente afagava-lhe os cabelos enquanto sussurrava sons incompreensíveis, rogando às luzes que ajudassem a sua querida Doce a encontrar a paz.
A clara regressa com a coca-cola e sentam-se as duas rindo. Rindo como duas adolescentes quase mulheres merecem rir. Sem compromissos, sem amarguras.
Um rapaz aproxima-se e, com gestos, pergunta se pode sentar-se. A conversa é muito escassa e cheio de risos pelas repetições e pelas frases que tem que ser ditas ao ouvido.
Pensa que é giro e aceita o seu convite para dançar um “slow”.
Agarrados – dança bem, ele – sussurra-lhe que já a estava a observar, que era muito gira e pergunta-lhe o nome.
- Cândida. – olhar profundo pela proximidade e pela firmeza nas palavras que se seguiam, sempre, agora – mas só de nome.
———————————————
Página: Cândida
Wouddabe
Quarta-feira, Julho 1, 2009
Saúdo-a com um abraço apertado, porque ela não gosta de abraços e a mim permite que o faça, de cara torcida e um humpf engasgado.
Cara fechada como sempre porque o alto dos seus quinze anos não lhe permitem sorrir.
- queres contar-me alguma coisa? Faz-me o favor de me beijar, menina, que a sua mãe não criou nenhuma mal-educada.
- Só tu, realmente! (…) pronto, já está! O que aconteceu? O que aconteceu, dizes tu? É por isso que te detesto, pá! E achas que precisa de acontecer alguma coisa a mim – bate com força no peito – para estar assim? Só o viver é mau! A crise! A escola! Em casa! O trânsito! Os transportes! – pausa teatral enfrentando-me o olhar – queres que continue? Queres?
- Pois, é verdade. Mas e não ias passar o fim de ano com o … teu novo namorado? Deve ter sido divertido, não?
- Foi, foi. Esta coisa apanhou-me de surpresa. Pensei que por esta altura já teríamos terminado, sabes? Ele na Nazaré, eu em Lisboa. Mas não! E somos tão diferentes! Acreditas que ele não quer ir para a faculdade? Não quer! Não é que não possa ou não tenha inteligência, simplesmente não-quer-ir! É impressionante! Quer acabar o décimo segundo para ir trabalhar. É impressionante!
- E os dois? Como estão?
- Somos tão diferentes! Eu quero viajar, aprender, viver, conhecer coisas novas, pessoas novas, experimentar… ele quer ser feliz. Feliz! É o que ele diz sempre. Feliz! Achas normal?
As palavras são expulsas com ferocidade, raiva, sangue novo. Aguardo eu, faço eu agora uma pausa teatral.
- E os dois – enfatizo – Como estão?
Fita-me de olhos muito abertos. Vejo-lhe a lágrima detestável aparecer.
- Achas possível amar?
- Sabes que sim.
- Pois, casal de pombinhos e tal! humpf! Achas possível eu amá-lo. É que eu não quero, sabes bem! Não quero mesmo.
O trânsito ajuda. Estamos sozinhas e paradas na ponte. Ficamos em silêncio.
- Tinha saudades tuas.
- Eu também.
- E a tua passagem de ano?
- Calma, claro. Em casa como F. e as Crias.
- Apanhei uma tosga descomunal. – olha-me recuperando a raiva – sabes que ele não bebe? Não bebe! Diz que não gosta do que a bebida faz. Diz que gosta da vida que tem e de sentir tudo o que vive! Achas normal? – silêncio – mas foi um querido… no dia seguinte tratou-me e tudo. Quando é que voltas às tuas passagens de ano, hã? Lembras-te? Até às tantas.
- Muito, muito depois de adormeceres cansada ao meu lado. – rimos – é bom estar apaixonada, não é? Confessa, vá!
- É. – os olhos brilham – é bom, sim.
—————————————————
Página: Wouddabe


