i

Cândida era pequena e roliça. Face redonda, cabelo escorrido da cor dos olhos, castanhos, normais. Era a mais velha de sete irmãos. Cândida, Alma, Clemente, Conceição, Serena, Salvador, Vitória. Todos baptizados com nomes indicativos de momentos “fascinantes” das respectivas concepções (devidamente explicadas em idade própria). Ah! É melhor explicar. Cândida era filha de, por palavras dos próprios, um hippie inveterado e de uma destrambelhada de primeira. Love, peace e essas coisas.

A Cândida, dizia a mãe, condicionada pelo nome, era… cândida. Calma, pacífica, despercebida. Aquela a quem ninguém se lembra de ver. A que fica sozinha nas festas. A que se senta na mesa dos pequeninos porque ninguém se lembrou de lhe marcar lugar.

As histórias familiares incluíam deixá-la numa prateleira de uma loja, e outras peripécias contadas entre gargalhadas dos pais, a bem da verdade, nunca jocosas mas antes carregadas de carinho. E também Cândida, dizia a mãe, condicionada pelo nome… não se importava.

Viu-o pela primeira vez no autocarro, a caminho da faculdade. Ela, cândida como o nome, de anorak gordo e cabelo grosseiramente preso num rabo-de-cavalo, parecendo ainda mais nova, ele, garboso, louro, cabelo com axe, olhos verdes.

Era evidente, para ela, que ele não a viu. E porque veria? Pouco dada à exuberância da família, tinha optado, há muito, pela discrição e humildade.

Foi assim durante muito tempo. Tanto que ela deixou de se importar. A sua feminilidade, surgida num meio tão sexualmente free e exuberante tinha sido, por deficiência de formação, cientificamente explorado. Estudou, apesar de só, os recantos e os sentimentos e achava ela que tinha conseguido, como um soldado disciplinado, controlar e esconder sob a capa do recato, a fogosidade descoberta e apreciada.

Um dia, sentada no lugar do costume, com um livro, como costume, no colo, sentiu-o, mais do que viu, sentar-se ao seu lado.

- Olá. Chamo-me José.

- Olá. – levantou os olhos do livro e viram-se directamente, assim tão próximo, pela primeira vez. Sentiu-lhe o cheiro da colónia misturado com o odor do axe. Não lhe disse o nome porque não lhe ocorreu que ele o quisesse saber. Com este olá despiu-o lentamente e esqueceu-se do recato. Esqueceu-se de ser cândida, como o nome, e beijou-lhe a barba com cada letra do seu nome.

- Já nos cruzamos há muito tempo. Vejo-te todos os dias quando entras no autocarro.
Levantou os olhos do livro que tentara retomar.
- Chamo-me Cândida. – desta vez aguentou o olhar.

Em plena Estrada da Circunvalação o autocarro avaria. O condutor, pesaroso, levanta-se e avisa os passageiros enquanto abre as duas portas:
- Meus senhores, este autocarro está avariado. Desçam, por favor, e aguardem o próximo autocarro que passa daqui a meia hora.

Olharam-se e sorriram.
Meia hora inteira.

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ii
Cândida, como o nome, olhou para o tecto naquela noite e viu outras coisas que não as pinturas holísticas.
Viu os dias que se passaram depois dAquele dia.
O pai reparou mas calou-se.

A mãe destrambelhada, puxa-a de lado enquanto lavam a loiça com areia.

- Quem foi?

- Mãe?

- Quem te roubou esse recato tão forçado que tinhas no olhar? Hoje vi-te nas folhas de chá que estivemos a ler, eu e a Conceição. As folhas mostraram-nos um rapaz bonito, louro…

- As folhas, mãe, mostraram-te o que a Conceição viu. Eu vi-a hoje ao pé do Fonte Nova. – sorriu. – Ela disse-te porque é que me encontrou no Fonte Nova?

- Hum. Pois. – fez o seu movimento típico de como quem espanta um mosquito, ou um cobrador de impostos, ou isso, abana a cabeça com os cabelos brancos, longos, e lindos como a Cândida os vê, e sorri. – conta tudo à tua velha mãe, vá.

- Deixa a miúda, miúda. – ri-se também o pai, enquanto entra na cozinha e abraça as duas – Cândida, Cândida, se tu soubesses as memórias que me trazes…

- Pai! – foge do seu abraço e ri-se – está bem. Tenho um namorado. Não quero falar de nomes, nem nada. Não é nada sério.

Os três riem-se.

Está sozinha agora e sozinha sorri. Cãndida, não como o nome, sente um vulcão de emoções.

Batem à porta. Alma e Conceição já dormem.

Depois de responder em voz baixa vê entrar a mãe, não tão destrambelhada nem tão sorridente. Levanta-se preocupada com “o que foi, mãe? Foi o Clemente? Mais um ataque de asma?” ainda mais baixinho para não acordar as irmãs. Laura, ou como é conhecida, Ainy, palavra apalaí para “ardente” – significado que, para embaraço de Cândida, é explicado a todos que cruzam com a família. Mesmo todos. Professora Primária incluída… – abanou negativamente a cabeça.

- Não foi só a Conceição que viu umas coisas – encolheu os ombros – bem, não viu mesmo nas folhas… o que eu quero dizer é que eu também vi. Uma parede, um cofre, um segredo. Não percebi muito bem… mas deve ser mais uma daquelas “coisas” palermas que vejo.

Cândida, agora filha pequena de Ainy, abraça-a com carinho. Esta afaga-lhe os cabelos e não consideram mais o assunto.

Ainy porque também “anteviu” o fim do mundo pelo menos 3 vezes.
Cândida porque acredita na ciência, nas leis da natureza e nos olhos verdes e profundos de José.

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iii

Começaram a sair numa paragem antes da dela e fazer o resto do caminho a pé.

- Porque é que olhaste para mim? Não sou burra. Nem cega. És giro, mais velho. O que sou eu? Não me apetece nada ser uma daquelas do cinema, tipo, aposta ou isso.
- Não sei. A sério. Não sei. Os teus olhos, curiosidade. Isso agora não importa, pois não?

O prazer que sentia com ele era bom. Melhor, pensava sempre. Melhor que bom. Fez um esforço em continuar cândida porque todos agora viam um brilho nos olhos, um sorriso nos lábios, uma alegria no andar. ainda assim, não sabe porquê, nunca se encontraram com amigos. “Por enquanto não”, pedia ela.

José, por seu lado, pareceu-lhe compreensivo e paciente.

- Vou ensinar-te o romantismo. – disse um dia com um grande ramos de flores e um cartão

“Se me amas, sorri. Se não, devolve-me, por favor, que tenho mais a quem dar”

É evidente que não conseguiu conter o sorriso mas devolveu-lhe o cartão com “pode ser que precises dele mais tarde”. Ele olhou-a e enfiou o cartão no bolso.
- Porque é que ainda não dissestes que me amas?
- Porque ainda não sei se te amo. Estou a ser muito feliz contigo mas não sei se é amor ainda.

Se ela o amava? Como não poderia amar? E também vaidade. Sim, vaidade. Ela, de figura plana, amava passear-se no Fonte nova ao lado dele, alto e magnífico. Ela, experiente apenas nas experiências pessoais, amava os sentimentos e recantos que ele lhe mostrava. Sentia vaidade em ter um namorado assim. Dizê-lo assim declaradamente não conseguia, não para já.

Um dia passaram em frente de uma loja de cofres.
- É aqui que trabalho. – disse ele. – monto cofres. Não é grande coisa, mas dá para pagar as contas.
Cofres? Sorriu.
- O que foi?
Beijou-o.
- Preciso ir para casa estudar.
- Fica mais um pouco, vá. Tens sempre que estudar, estudar. – abraçou-a – vamos lá dentro. Eu tenho a chave…
Desprendeu-se do abraço e insistiu.
- Não posso, a sério. Vemo-nos no Sábado.
- Sábado? Por favor, Cândida, hoje é Domingo! Vais ficar uma semana sem me ver?
- É difícil, confesso, mas tenho um trabalho para entregar na Sexta. Não vou conseguir. Desculpa.
- Mas na Quinta é dia dos namorados. Estava a pensar…
- Zé, não! E isso do dia dos namorados é parvoeira, não achas?
- Mostrar que amamos alguém não é parvoeira. Não para mim. Tenho pena que penses assim!
Afastaram-se zangados.

Pensou que já tinha feito asneira. Caminhou para casa com a sensação que não deveria ser tão desconfiada, tão “científica” e calculista. Um pouco de romantismo poderia ser bom. “Faço-lhe uma surpresa”.

Trabalhou e estudou dia e noite e conseguiu terminar o trabalho Quarta à noite. De manhã passou pela faculdade e entregou-o. Seguiu para o Fonte Nova onde comprou na loja de prendas um postal enorme com corações. Escreveu “Amo-te” em letras enormes. Passa na florista e escolhe uma rosa com uma quadra “picante” e lamechas.

- Bom dia, menina, posso ajudar?
- Sim. Queria falar com José F…, por favor.
- Mas a menina quem é?
- A namorada.- sorriu enquanto corava.

O dono da loja ficou a olhar para ela com cara fechada. O sorriso profissional que tinha desvaneceu-se e tornou-se num ar zangado, frio.
Ela ficou sem perceber nada.
Mas não gostou.

 

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iv

 

A festa era ruidosa., como se quer de uma festa, certo?

Foi para a pista dançar e não se importou de o fazer sozinha. Gostava de estar sozinha. Mesmo ali, no meio de tanta gente, entre empurrões de movimentos maiores que o espaço permitia, mesmo ali com o barulho ensurdecedor ela sentiu-se sozinha.
E gostou.

A Clara chama-a para uma bebida.
Entre gritos consegue explicar que quer apenas uma coca-cola. Só uma coca-cola, sem mais nada.

Recorda que os tempos seguintes àquele dia não foram pacíficos. Muita tristeza, amargura, ódio e choro. Muito choro.
- Minha querida – dizia-lhe a mãe – chora o que quiseres, enquanto quiseres. Grita a raiva que tens dentro de ti enquanto precisares. Toma um chá. Esta erva acalma.
E lentamente afagava-lhe os cabelos enquanto sussurrava sons incompreensíveis, rogando às luzes que ajudassem a sua querida Doce a encontrar a paz.

A clara regressa com a coca-cola e sentam-se as duas rindo. Rindo como duas adolescentes quase mulheres merecem rir. Sem compromissos, sem amarguras.

Um rapaz aproxima-se e, com gestos, pergunta se pode sentar-se. A conversa é muito escassa e cheio de risos pelas repetições e pelas frases que tem que ser ditas ao ouvido.
Pensa que é giro e aceita o seu convite para dançar um “slow”.

Agarrados – dança bem, ele – sussurra-lhe que já a estava a observar, que era muito gira e pergunta-lhe o nome.
- Cândida. – olhar profundo pela proximidade e pela firmeza nas palavras que se seguiam, sempre, agora – mas só de nome.

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