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O dia vai longo e gosto do que faço. Se fosse novo, como alguns dos gaiatos que daqui expulso, dizia que era gótico. Porque gosto da morte. Não gosto que as pessoas morram, não gosto de ver os seus rostos enquanto aguardo a minha vez de entrar em cena, mas gosto de todo o resto.
Gosto de andar por aqui e ouvi-los falar.
Não pensem que sou louco, não os oiço, oiço falar, mas imagino-os falar a partir dos funerais que têm e das campas que lhes constroem.
O que faço eu aqui? Levanto campas. Só isso. Nada de mais, sem misticismo nenhum, sem pesar nem derrotismos. Não sou daqueles que queriam ser isto ou aquilo e acabam para aqui largados, “caras de cus” sem eira nem beira.
Também não sou um errante ou artista ou até – como dizem também os gaiatos – um vampiro que bebe o sangue dos corpos, mais ou menos como um guloso que trabalha numa pastelaria. Se eles soubessem, seria mais parecido um guloso trabalhar numa loja de parafusos.
É que os mortos, quando para aqui vêem estão limpos de sangue. Se fosse vampiro não era por aqui que me safava, não.
O que sou, afinal? Isso é outra história. Fui o que fui, pode não interessar, que provocou o que sou, que não interessa mesmo. O que interessa é onde vou.
Vou a Algés apanhar o comboio para a praia de Carcavelos. Porque hoje levantei um corpo que tinha uma carta propositadamente embrulhada em plástico grosso para resistir os 5 anos da praxe. Na carta apenas um “Carcavelos, 1980” e um pó que em tempos foi uma margarida. Estava lá nesse dia.
Hoje não veio. Levantei o corpo sozinho. Sozinho mais o representante da Câmara que me instruiu para o fazer seguir para “aquele lado”.
Este novo representante é um moço novo. Este sim, um verdadeiro “cara de cu”. Destruído dia a dia pelo trabalho que não gosta, queixa-se todos os dias dos estudos que fez, do que estava destinado a ser, para ali abandonado junto a um coveiro palerma que fala com os mortos.
Hoje não veio mas lembro-me muito bem dela. Vi-a por a carta e a margarida num saco muito grosso e perguntou-me se aquilo ia resistir 5 anos. Acenei-lhe que sim.
Ao contrário do que o Cara de Cu pensa a carta não foi para o outro lado com as ossadas. Roubei-a e levo-a para a ler. Foi ela que me pediu.
- Isto resiste 5 anos, meu senhor?
- Resiste sim, minha senhora.
- De hoje a 5 anos não vou estar cá. Pegue nela, leia-a e destrua-a.
- Minha senhora…
Tal como num filme, daqueles detestáveis com mulheres enigmáticas, ela pediu-me segredo. E eu guardei.
E agora cumpro a sua promessa. O que eu não esperava era uma avaria no autocarro em plena Estrada da Circunvalação. Meia Hora, que raios! Mas está bem. Não tenho propriamente uma mulher quente (ou até uma fria, que agora também dava jeito) à minha espera…
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Cumpro a promessa?
Faço um desvio na promessa, isso sim. Depois do Cara de Cu se ir embora, resmungando um até amanhã indecifrável, não soubesse eu que era o que me dizia todos os dias que havia levantamentos, arrumo as minhas pás e saio do cemitério.
Não gosta de nada, detesta os levantamentos. Eu? É a parte final de um trabalho sem fim.
Vejo as pessoas que mudam. É verdade, sim. Conheço-as. Quando as conheço.
Muitos Caras de Cu e Filhos do diabo são levantados assim, tendo por companhia o coveiro e o representante resmungão da Câmara. Outros têm advogados cheirosos, executantes das heranças. Lembro-me da de ontem. Era menina quando lhe enterrei o pai. Esteve calada, séria, nem uma lágrima lhe vi. Veio sozinha, mulher feita. Puxei-a à parte antes do Cara de Cu chegar – diz-me que não tenho estudos, que a minha tarefa é cavar, que não posso e não devo falar com os familiares – e avisei-a. O seu pai não está pronto, menina. Não olhe. A menina-mulher agradece-me com o olhar, sabe do que falo apesar da leve interrogação no olhar.
Saio do autocarro. Afinal não era o meu mas o que vinha em sentido contrário e o condutor, amiguinho como é, decide parar também, tentar ajudá-lo. Ou isso ou é aquela estúpida camaradagem de colegas de trabalho. O que vale é que trabalho apenas com o meu querido Cara de Cu. A esse, levo-o sempre pelos caminhos melhores, cheios de lama, para que suje as belas calças vincadas. Já pensei no que faria caso caísse numa das covas.
O autocarro fica para ali encostado e decido ir à taberna de beira da estrada. Vejo os passageiros do outro, um casal de namorados, uma senhora bem vestida, duas ciganas carregadas de sacos, uma mãe com dois filhos irrequietos, um mecânico (devia ser, pelo fato macaco que trazia), três estudantes alemães e mais uns quantos que não saíram do autocarro, com medo que aquela má redondeza os comesse. Mas que raio de sítio este para o autocarro avariar!
Desviei-me da minha promessa?
Deveria ter lido e destruído.
E é o que vou fazer. Apenas não no cemitério. Vou a Carcavelos, à praia de Carcavelos. Sento-me na areia, leio a carta, rasgo-a e deito os restos na água juntamente com o pó da margarida.
Entro na taberna e inalo com gosto o cheiro maduro e bolorento do vinho nas pipas, enormes, deitadas atrás do balcão.
Peço um copo de três tinto, pago e sento-me num banco comprido, de madeira velha, suja e negra do vinho derramado.
Depois de o tomar de uma só vez, tiro o saco do bolso de dentro do casaco. Aliso-o e vejo de novo a letra feminina, redonda e perfeita
Carcavelos, 1980.
Mulher bonita. Pequena, roliça, saia travada, lábios vermelhos. Lágrimas que escorrem sem as segurar, soluço contido, sem dignidade.
Veio sempre às sextas-feiras.
Só às sextas-feiras.
Todas as sextas-feiras.
Na última avisei-a – vejam – que o levantamento estava marcado para a sexta-feira seguinte.
- Obrigada. Até sempre.
Hoje percebi o que queria dizer. Não veio.
Aliso o plástico, remexo no pó, enclausurado.
Porque não veio ela hoje?
A taberneira avisa-me que o autocarro está pronto a partir. Agradeço e saio. Tome cuidado, disse-me por entre benzimentos, roçando no sinal purulento na face. Está a ver o céu? Olho para onde aponta, por trás da serra do Monsanto, magnífica. Um raio de sol rompia no meio das nuvens, dando uma tez vermelha ao céu.
- Coisa boa não se anuncia, cruzes canhoto.
- Não tenha medo, Senhora. Sou eu que encomendo as almas ao inferno e hoje não é o seu dia.