As love stories should be
Segunda-feira, Setembro 7, 2009
“-Genoveva! Como a história do Rei Artur!” Era assim que se apresentava. “Como todas as histórias de amor deviam ser”, acrescentava. E ninguém a contrariava. Sorriam, como se soubessem perfeitamente do que falava, e outros aludiam a um suspirado É verdade!, como que concordando.
Fazia aquele percurso todos os dias. Um comboio, dois autocarros, uma camioneta e uma subida de vinte e quatro minutos exactos. Devia tirar a carta, dizia a filha muitas vezes, já não vai para nova, a mãe. Que os tempos eram outros, que andaram as avós sufragistas a lutar tanto, que já não era a namoradinha do Mr. Darcy.
“-Uma senhora não conduz!” – percebendo nitidamente a brincadeira – “Além de que estes portugueses são péssimos a conduzir!”
- “Genoveva, querida” – na audácia de tratamento que só a boa disposição da senhora permitia – “E foste logo apaixonar-te por um!”
Genoveva condescendia num sorriso – “O meu Artur é diferente!”
Era directora de um colégio. O melhor em Lisboa, em Portugal. Bem, o melhor que se pode ter neste Portugal atrasado e tacanho. Com os cravos de oito anos ainda por murchar e já uns bolsos vazios e cabeças velhas de vãs esperanças.
O autocarro parou, retirando-a dos seus pensamentos. O homenzinho minúsculo, execrável dissera qualquer coisa. Avaria, acreditou ouvir. Tudo velho neste país, tudo.
Saíram todos para a rua. Mas uma senhora não o faria. Permaneceu sentada no seu lugar. Permitiu-se recordar o seu mais recente “projecto”.
O Presidente do Conselho Directivo tinha-a chamado para lhe comunicar que viria uma nova aluna para integrar a turma da professora Maria Luísa.
- Como?! – Indignou-se – Quantas vezes já lhe disse para não introduzir alunos a meio dos ciclos escolares?!
- Tem razão, D. Genoveva, mas os pais pediram-me tanto! E o pai dela é irmão do Sr. Lúcio, o pai da Doroteia. As meninas são primas! – riu-se com a esperteza – sai a doroteia entra a … como se chama a moça? Tem o nome daquela artista de cinema, ou qualquer coisa, Sabrina! Isso.
Apesar de zangada com esta nova aquisição, não pode deixar de reparar que o “Santos”, um novo rico cheio de boas intenções e desejos de laicidade, fraternidade e igualdade, não tinha chamado a professora de Milú, como todos. que mania esta de dar diminutivos a toda a gente. “Daniel” era dani, “Eunice” era nice…
Um barulho na frente do autocarro chamou-a à realidade. Reparou que era apenas um sorriso feminino. Um parzinho falava baixinho, enamorados via-se bem. “My God!”, quase saltou a Senhora, que diferença. Ele atlético, louro; ela, coitada, tipicamente portuguesa, baixa e ligeiramente anafada. Ele segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido e ela sorriu uma outra vez.
Lembrou-se da sua querida Doroteia. Que belos olhos azuis os dela, que caracóis lindos, sempre impecavelmente penteados. Conhecia-a desde os dois anos. Trazia sempre uns sapatos de verniz que nunca estragava e belos vestidos de folhos. E que porte o dela! Do ballet, também, mas era inato na menina. O cérebro prega partidas e lembrou-se da prima.
Passava mais de meia hora da hora combinada quando ouviu o roncar de um carro horrível. Detestava atrasos. Olhou pela janela e viu um carro novo, desses que agora se usam, que fazem tanto barulho e têm uma buzina estridente. Procurou ver quem seria mas devia ter adivinhado.
- D. Genoveva, a família Santos chegou. Estão no escritório.
Preparou-se para o pior.
- Obrigada, Natália.
Entrou na sala e examinou-os bem. Um a um.
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Página: a lenda do rei artur