I
Estava fria aquela manhã junto ao cais. Faltava ainda uma hora para o nascer do sol e uma ténue neblina envolvia timidamente a pequena figura de pé, nas rochas junto à margem. Bonita figura de miúda com olhos grandes mas de olhar estranhamente vago e cinzento; parecia atordoada, inebriada por uma dor parada no tempo, parada num passado recente.
Usava uns trapos ordinários como os que as saloias traziam quando vinham à “cidade”. Trapos sujos e enxovalhados como se tivessem vagueado perdidos, por caminhos sem rumo a noite inteira.
Fugia para longe. Longe da memória, longe da casa dos patrões, sem parar, até rebentar as botas, até rebentar os pés, sem parar, até chegar junto àquele mar escuro e insensível, que temera no ver pela primeira vez.
Só o mar lhe podia limpar as lágrimas e a vergonha, a dor e a vida…
Ouviram-se as águas a rasgarem-se para acolher aquele pequeno corpo e sentiu o gelo que lhe cortava a pele e a carne como facas afiadas de aço; mas não podia ceder…
Sentiu depois o sal daquela maldita água a inundar e queimar-lhe os pulmões mas não podia nem sabia voltar atrás.
Parecia que a própria Morte lhe virara as costas não a levando depressa para o esquecimento…
… uma dor na cabeça e sentiu-se içada pelos cabelos para dentro de uma embarcação, por um braço e mão de ferro, – Diabo da catraia, não gosta de cá andar…
Doíam-lhe todos os músculos e ossos do corpo como se tivesse sido amassada para fazer pão, especialmente onde o cabelo quase fora arrancado pela raiz.
Demorou uns bons minutos, enrolada no meio do peixe, no fundo das cavernas, a cuspir a água dos pulmões e recuperar os sentidos, a tremer de frio e medo, até perceber a velha figura que a fitava, aparvalhado, com os olhos marejados de lágrimas.
Estranha escultura aquela, talhada num corpo rijo, com marcas de faina e da vida na pele escurecida pelo sol do mar e pelo passar dos anos a que se perdera a conta.
Chamavam-lhe “Zé do Bote”.
Chegara um dia à Vila, vindo do outro lado do mar, sem mulher nem filho.
Corria que os perdera numa noite de vendaval, para o mesmo mar ao qual voltava todas as noites, para ganhar sustento, matar os dias, para os trazer de volta…
II
Passaram anos e aquela manhã estava fria junto ao cais. Faltava ainda uma hora para o nascer do sol e uma ténue neblina envolvia timidamente as figuras de pé, nas rochas junto à margem.
Bonita figura de mulher com grandes olhos escuros como aquele mar mas de olhar brilhante e sereno.
Esperava pelo seu “Pai”.
Era assim que Ela chamava ao velho Zé do Bote, desde o dia em que lhe dera a vida; a si, e à pequena criança que trazia pela mão.
Esperavam ambos pelo “Pai” e pelo pescado que haviam de vender por bom preço na lota.
Esperavam pelo velho Zé do Bote que uma noite roubara uma vida ao mar, sem saber que dentro dela outra vida se salvara…
[...] Contos do F [...]