Vi-as pela primeira vez na loja do rés-do-chão.
Vi-as por defeito de profissão. Sou cabeleireira. Olho para as mulheres e para os seus cabelos como se fossem um só, fazendo logo juízos, decidindo mentalmente o que faria, elogiando ou gritando silenciosamente o terrível trabalho das eventuais colegas.
A loja estava cheia de lembranças, revistas e com um piscar de olhos – sinal que a enfermeira simpática nos ensinava – tabaco, esse artigo proibido.
Se cabeleireira não fosse não repararia nelas. Aliás, devo confessar que as reconheci depois pelo cabelo e não pelas suas faces.
Uma com ar de estrangeira, nórdica talvez; a outra portuguesa. A primeira era provavelmente mais velha que eu, a segunda era já uma senhora, daquelas que pintam os cabelos de azul, fazem “mises” para fazer encher os cabelos que já faltam. Quando me coloquei atrás dela na fila cheirava ainda a laca cara. Laca, pergunto eu, porquê se há cera, muito melhor e menos artificial. Cruzei-me com a outra no elevador. Cabelo curto a denotar pouco trabalho, pouco dinheiro e pouco tempo para cuidar.
Fora isso eram mais duas. Apenas mais duas.
No quarto do Ari estavam mais dois homens.
- Estás bem? – pergunto-lhe com o ar mais jovial – pregaste-nos cá um susto, malandro!
Ele sorri-me enquanto procura os meus olhos por informações que não lhe dão. Em tempos tão difíceis como estes, em que tudo o que querem é homens para a frente, ainda para mais com a especialidade dele, nada lhes dizem. Descanso, vaticinam em qualquer situação, nada esclarecendo.
Mas o Ari sabe que eu sei, que posso saber. E por isso indaga-me com um beijo e minto-lhe – Está tudo bem, Ari. Desta vez é mesmo só descanso que precisas.
Elas entram. Uma e depois a outra.
Em circunstâncias normais nem duas palavras trocaríamos. Mas os tempos e as circunstâncias não eram normais. E a vida tem destas coisas. Levo-as a casa, almoçamos juntas, rimos e choramos juntas.
Três mulheres, um almirante, um primeiro-tenente e um cabo. Ou assim digo eu que em tempos destes não se diz nada a ninguém. Para elas eu sou cabeleireira e o Ari é cabo. E é assim que tem que ser…
[...] Elas são três… o mundo é só um [...]