Luzia

Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

– Vó, vó, vó, vó!

– Santa Bárbara, rapariga, que me gastas o nome! – sorri. Tira o avental e espera com cuidado o irromper da neta.

– Não gasto nada vó! Só eu te trato assim. Só eu.

E era verdade. tinha construído um pequeno império, orgulhava-se ela. Era respeitada pelos filhos, amada pelos netos, temida pelas noras e genros, tudo como queria. Só esta tempestade era diferente. A única que a tratava assim, com despudor, com intimidade, sem deferência. E porquê, perguntou-lhe quando o tio mais velho a repreendeu. E porquê, tio? Para ela tudo tinha e devia ter um porquê. Eu amo a minha vó. Eu vou amar sempre a minha vó.

Já sabia que a neta chegaria com uma notícia fantástica para si.

– Vó, vó, – ouviu-se enquanto percorria o quintal, subia as escadas entrava porta dentro e corria para a cozinha – vó, vó, vê o que a tia me trouxe de Espanha!

Uma boneca pendia das mãos da pequena presa pelo pé de plástico.

– Mas assim magoas o bebé, rapariga. Pega-lhe com cuidado!

– Vó! – batendo o pé – é uma boneca, não é um bebé – constata com impaciência – mas é linda, vó. É linda, não achas?

– É linda, sim. Que nome lhe deste?

– Luzia. Ouvi-te dizer esse nome quando sonhavas

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a história toda aqui

Elas são três

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Três mulheres, um almirante, um primeiro-tenente e um cabo. Ou assim digo eu que em tempos destes não se diz nada a ninguém. Para elas eu sou cabeleireira e o Ari é cabo. E é assim que tem que ser…

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história toda aqui

 

Contos do F

Terça-feira, Outubro 6, 2009

I

Estava fria aquela manhã junto ao cais. Faltava ainda uma hora para o nascer do sol e uma ténue neblina envolvia timidamente a pequena figura de pé, nas rochas junto à margem. Bonita figura de miúda com olhos grandes mas de olhar estranhamente vago e cinzento; parecia atordoada, inebriada por uma dor parada no tempo, parada num passado recente.

Usava uns trapos ordinários como os que as saloias traziam quando vinham à “cidade”. Trapos sujos e enxovalhados como se tivessem vagueado perdidos, por caminhos sem rumo a noite inteira.

Fugia para longe. Longe da memória, longe da casa dos patrões, sem parar, até rebentar as botas, até rebentar os pés, sem parar, até chegar junto àquele mar escuro e insensível, que temera no ver pela primeira vez.

Só o mar lhe podia limpar as lágrimas e a vergonha, a dor e a vida…

Ouviram-se as águas a rasgarem-se para acolher aquele pequeno corpo e sentiu o gelo que lhe cortava a pele e a carne como facas afiadas de aço; mas não podia ceder…

Sentiu depois o sal daquela maldita água a inundar e queimar-lhe os pulmões mas não podia nem sabia voltar atrás.

Parecia que a própria Morte lhe virara as costas não a levando depressa para o esquecimento…

… uma dor na cabeça e sentiu-se içada pelos cabelos para dentro de uma embarcação, por um braço e mão de ferro, – Diabo da catraia, não gosta de cá andar…

Doíam-lhe todos os músculos e ossos do corpo como se tivesse sido amassada para fazer pão, especialmente onde o cabelo quase fora arrancado pela raiz.

Demorou uns bons minutos, enrolada no meio do peixe, no fundo das cavernas, a cuspir a água dos pulmões e recuperar os sentidos, a tremer de frio e medo, até perceber a velha figura que a fitava, aparvalhado, com os olhos marejados de lágrimas.

Estranha escultura aquela, talhada num corpo rijo, com marcas de faina e da vida na pele escurecida pelo sol do mar e pelo passar dos anos a que se perdera a conta.

Chamavam-lhe “Zé do Bote”.

Chegara um dia à Vila, vindo do outro lado do mar, sem mulher nem filho.

Corria que os perdera numa noite de vendaval, para o mesmo mar ao qual voltava todas as noites, para ganhar sustento, matar os dias, para os trazer de volta…

 

II

Passaram anos e aquela manhã estava fria junto ao cais. Faltava ainda uma hora para o nascer do sol e uma ténue neblina envolvia timidamente as figuras de pé, nas rochas junto à margem.

Bonita figura de mulher com grandes olhos escuros como aquele mar mas de olhar brilhante e sereno.

Esperava pelo seu “Pai”.

Era assim que Ela chamava ao velho Zé do Bote, desde o dia em que lhe dera a vida; a si, e à pequena criança que trazia pela mão.

Esperavam ambos pelo “Pai” e pelo pescado que haviam de vender por bom preço na lota.

Esperavam pelo velho Zé do Bote que uma noite roubara uma vida ao mar, sem saber que dentro dela outra vida se salvara…

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Página: Contos do F

As love stories should be

Segunda-feira, Setembro 7, 2009

“-Genoveva! Como a história do Rei Artur!” Era assim que se apresentava. “Como todas as histórias de amor deviam ser”, acrescentava. E ninguém a contrariava. Sorriam, como se soubessem perfeitamente do que falava, e outros aludiam a  um suspirado É verdade!, como que concordando.

Fazia aquele percurso todos os dias. Um comboio, dois autocarros, uma camioneta e uma subida de vinte e quatro minutos exactos. Devia tirar a carta, dizia a filha muitas vezes, já não vai para nova, a mãe. Que os tempos eram outros, que andaram as avós sufragistas a lutar tanto, que já não era a namoradinha do Mr. Darcy.

“-Uma senhora não conduz!” – percebendo nitidamente a brincadeira – “Além de que estes portugueses são péssimos a conduzir!”

– “Genoveva, querida” – na audácia de tratamento que só a boa disposição da senhora permitia – “E foste logo apaixonar-te por um!”

Genoveva condescendia num sorriso – “O meu Artur é diferente!”

Era directora de um colégio. O melhor em Lisboa, em Portugal. Bem, o melhor que se pode ter neste Portugal atrasado e tacanho. Com os cravos de oito anos ainda por murchar e já uns bolsos vazios e cabeças velhas de vãs esperanças.

O autocarro parou, retirando-a dos seus pensamentos. O homenzinho minúsculo, execrável dissera qualquer coisa. Avaria, acreditou ouvir. Tudo velho neste país, tudo.

Saíram todos para a rua. Mas uma senhora não o faria. Permaneceu sentada no seu lugar. Permitiu-se recordar o seu mais recente “projecto”.

O Presidente do Conselho Directivo tinha-a chamado para lhe comunicar que viria uma nova aluna para integrar a turma da professora Maria Luísa.

– Como?! – Indignou-se – Quantas vezes já lhe disse para não introduzir alunos a meio dos ciclos escolares?!

– Tem razão, D. Genoveva, mas os pais pediram-me tanto! E o pai dela é irmão do Sr. Lúcio, o pai da Doroteia. As meninas são primas! – riu-se com a esperteza – sai a doroteia entra a … como se chama a moça? Tem o nome daquela artista de cinema, ou qualquer coisa, Sabrina! Isso.

Apesar de zangada com esta nova aquisição, não pode deixar de reparar que o “Santos”, um novo rico cheio de boas intenções e desejos de laicidade, fraternidade e igualdade, não tinha chamado a professora de Milú, como todos. que mania esta de dar diminutivos a toda a gente. “Daniel” era dani, “Eunice” era nice…

Um barulho na frente do autocarro chamou-a à realidade. Reparou que era apenas um sorriso feminino. Um parzinho falava baixinho, enamorados via-se bem. “My God!”, quase saltou a Senhora, que diferença. Ele atlético, louro; ela, coitada, tipicamente portuguesa, baixa e ligeiramente anafada. Ele segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido e ela sorriu uma outra vez.

Lembrou-se da sua querida Doroteia. Que belos olhos azuis os dela, que caracóis lindos, sempre impecavelmente penteados. Conhecia-a desde os dois anos. Trazia sempre uns sapatos de verniz que nunca estragava e belos vestidos de folhos. E que porte o dela! Do ballet, também, mas era inato na menina. O cérebro prega partidas e lembrou-se da prima.

Passava mais de meia hora da hora combinada quando ouviu o roncar de um carro horrível. Detestava atrasos. Olhou pela janela e viu um carro novo, desses que agora se usam, que fazem tanto barulho e têm uma buzina estridente. Procurou ver quem seria mas devia ter adivinhado.

– D. Genoveva, a família Santos chegou. Estão no escritório.

Preparou-se para o pior.

– Obrigada, Natália.

Entrou na sala e examinou-os bem. Um a um.

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Página: a lenda do rei artur

Até Setembro

Terça-feira, Julho 7, 2009

Pois tenho a(s) casa(s) toda(s) desarrumada(s) e abandonada(s)…

 

Faço um ponto final (mas não parágrafo) porque, de facto, é injusto (?) esperarem uma coisa que agora não consigo dar.

 

Continuo sem dizer adeus (teimosa, eu) mas estou assim como este “televisor”.

 

Entretanto, deste lado  teremos as minhas aventuras nas letras que tentam fazer sentido (é só olhar para os separadores e fazerem de conta que são histórias em progresso).

 

Por aqui fica no limbo… esperando dias menos cansados.

 

Obrigada por me visitarem.

 

Voltem só em Setembro, ok? Não prevejo que antes coloque aqui mais nada!

 

beijos a todos

versão masoquéquequeresmeianoite

Quarta-feira, Julho 1, 2009

 

Digam lá se conseguiriam resistir a estes olhos?

Conseguiam?
Eu também dizia que sim!
Vá, caros defensores dos animais meus amigos, camaradas… (ufa!) acusem-me lá de não dar comida ao bicho! Vá!
Sim, porque este olhar (e os miados que o acompanham) só podem ser de fome esgalgada, claro!!!
Digo para se ir embora… vai, vai! 😦
Mas não vai…
Em vez disso, faz guarda ao “Sýtio” (escrevi assim com “y” para lhe dar mais classe! – depois verão porquê)
Dizia…
Faz guarda ao Sýtio da sua eleição… olhos maiores que os do Gatos das Botas… e mia

(por esta altura quem não me conhece e aqui veio parar googlando “maus tratos em animais” está simultaneamente a escrever um ofício para a SPDA…)

E agora olha alternadamente para mim e para o Sýtio. (se falasse chamar-me-ía BURRA)

entretanto tenho que ir afugentar a vizinha/fã n.º 1 do Tony Carreira porque me bate à porta, de cigarro em punho, rolos na cabeça, creme na cara perguntando-me o que se passa com o bichano

Desculpo-me dizendo que é a reacção dele à música que certos vizinhos emitem… não sei, parecem gritos… nem sei de onde vêem… ai, vizinha, se soubesse o que já lhe fiz para o calar… se ao menos soubesse de onde vem esta chinfrineira!
(a vizinha retira-se zangada – já não recebes ramos de flores secas pirosas para o ano! parece atirar-me entre dentes e bafuradas) Obrigadinha, sim?

Decido, para o bem de todos e principalmente MEU, dar-lhe o que quer…
E lá segue ele o seu caminho feliz e contente, cantando e rindo (ah, claro. O LF canta, mas só em crioulo – que é muito mais fashion que o francês habitual dos gatos)
Dizia
Canta, ri e brinca com Aquylo que tiro do Sýtio

Sabeis o que é?

Não?
Eis a causa de tanto alarido, miado e sei lá que mais

Ainda não sabem o que é?

E agora?

Já sabem???

Termino desvendando um segredo… ou vários

– não maltrato os animais, com a excepção, devidamente justificada, de certos artrópedes Hymenoptera e Neoptera quando e se se aventuram a entrar neste Matriarcado!
(digam lá se não é giro ter Crias que gostam de ciências???? nunca ouviram nomes tão giros para bichos tão blraaaaaagh! pois não?)
– não deixo o Lord F. passar fome,
– não rabujo com os vizinhos
e
(infelizmente)
– recebo ramos de flores pirosos das minhas vizinhas – que agradeço com dois beijos – com creme e tudo, humpf!
– dei cabo de uma caixa de cotonetes para montar esta masterpiece – passem a falar mais alto, se fazem o favor!!!!
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Página: Lord F.

Tenho uma gravata

Quarta-feira, Julho 1, 2009

Na verdade tenho três!

Mas hoje coloquei uma. É gira. Aliás, são as três giras.

Também tenhos lenços – só dois. Tinha um muito giro mas que queimei com o cigarro. (vá, digam lá que é bem feito!)

E ganchos. Com borboletas e isso.

E uso isto tudo (não ao mesm tempo!)

Olhei-me no espelho e disse: Estás gira, hoje.

As minhas mui abençoadas crias corroboraram.

Sozinha mais tarde procurei por ti… tu que me dizes que não sou, nunca fui nem nunca serei gira. Que me empurras para baixo e me angustias. Ah, encontrei-te! Olho-te nos olhos, agarro-te pelos cornos
– Já não mandas tanto em mim.
Olhas-me com olhos azuis bebés muito abertos. Sorris como se fosses dizer qualquer coisa mas parto-te os dentes todos. Só se vê a lingua verde.

– Eu sei que ainda vens cá de vez em quando… mas não moras cá.
Falaste-me com voz de mesa de madeira. Já não percebo o que dizes.

– Volta noutro dia, está bem? Hoje estou gira.

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Página: I’m wiser

Tu

Quarta-feira, Julho 1, 2009

Tens três fileiras de dentes terríveis… vermelhos e vorazes.

Conheces-me desde sempre, pensava eu. Mas não conheces, sabes? Não conheces. Não te pertenço.

Como é que apareceste? Não me lembro… Como é que ficaste assim tão forte? Também não sei. Não sei muito sobre Ti. Mas conheço o mal que me fazes. Conheço os sentimentos que me trazes.

E no entanto não Te culpo. Fizeste-me crescer. De uma maneira horrível, tremenda, tenebrosa, fizeste-me ultrapassar-Te, vencer-Te, ou, em alturas mais fracas, apenas ignorar-Te.

Porque me procuras?
Porque tiveste tanto interesse em mim?

“Ah, encontrei-te! Olho-te nos olhos, agarro-te pelos cornos – Já não mandas tanto em mim. Olhas-me com olhos azuis bebés muito abertos. Sorris como se fosses dizer qualquer coisa mas parto-te os dentes todos. Só se vê a lingua verde. – Eu sei que ainda vens cá de vez em quando… mas não moras cá.”

Parto-Te os dentes outra vez. Já cá entraste hoje. Mas recuso-Te. Recuso-Te. Recuso-Te.

I rise up and destroy you. I rise up and shout I’m not yours!
I rise up and endlessly sing that I am bolder

I’m wiser
I AM BETTER!

Não Te mando mais embora. Encurralo-Te de modo a que fiques onde Te veja. Para que não fujas, não conspires, não me invadas.

Hoje não estou gira

Eu SOU gira.

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Página: I’m Wiser

Taberna

Quarta-feira, Julho 1, 2009

Cumpro a promessa?
Faço um desvio na promessa, isso sim. Depois do Cara de Cu se ir embora, resmungando um até amanhã indecifrável, não soubesse eu que era o que me dizia todos os dias que havia levantamentos, arrumo as minhas pás e saio do cemitério.
Não gosta de nada, detesta os levantamentos. Eu? É a parte final de um trabalho sem fim.
Vejo as pessoas que mudam. É verdade, sim. Conheço-as. Quando as conheço.

Muitos Caras de Cu e Filhos do diabo são levantados assim, tendo por companhia o coveiro e o representante resmungão da Câmara. Outros têm advogados cheirosos, executantes das heranças. Lembro-me da de ontem. Era menina quando lhe enterrei o pai. Esteve calada, séria, nem uma lágrima lhe vi. Veio sozinha, mulher feita. Puxei-a à parte antes do Cara de Cu chegar – diz-me que não tenho estudos, que a minha tarefa é cavar, que não posso e não devo falar com os familiares – e avisei-a. O seu pai não está pronto, menina. Não olhe. A menina-mulher agradece-me com o olhar, sabe do que falo apesar da leve interrogação no olhar.

Saio do autocarro. Afinal não era o meu mas o que vinha em sentido contrário e o condutor, amiguinho como é, decide parar também, tentar ajudá-lo. Ou isso ou é aquela estúpida camaradagem de colegas de trabalho. O que vale é que trabalho apenas com o meu querido Cara de Cu. A esse, levo-o sempre pelos caminhos melhores, cheios de lama, para que suje as belas calças vincadas. Já pensei no que faria caso caísse numa das covas.

O autocarro fica para ali encostado e decido ir à taberna de beira da estrada. Vejo os passageiros do outro, um casal de namorados, uma senhora bem vestida, duas ciganas carregadas de sacos, uma mãe com dois filhos irrequietos, um mecânico (devia ser, pelo fato macaco que trazia), três estudantes alemães e mais uns quantos que não saíram do autocarro, com medo que aquela má redondeza os comesse. Mas que raio de sítio este para o autocarro avariar!

Desviei-me da minha promessa?
Deveria ter lido e destruído.
E é o que vou fazer. Apenas não no cemitério. Vou a Carcavelos, à praia de Carcavelos. Sento-me na areia, leio a carta, rasgo-a e deito os restos na água juntamente com o pó da margarida.

Entro na taberna e inalo com gosto o cheiro maduro e bolorento do vinho nas pipas, enormes, deitadas atrás do balcão.
Peço um copo de três tinto, pago e sento-me num banco comprido, de madeira velha, suja e negra do vinho derramado.
Depois de o tomar de uma só vez, tiro o saco do bolso de dentro do casaco. Aliso-o e vejo de novo a letra feminina, redonda e perfeita
Carcavelos, 1980.

Mulher bonita. Pequena, roliça, saia travada, lábios vermelhos. Lágrimas que escorrem sem as segurar, soluço contido, sem dignidade.
Veio sempre às sextas-feiras.
Só às sextas-feiras.
Todas as sextas-feiras.

Na última avisei-a – vejam – que o levantamento estava marcado para a sexta-feira seguinte.
– Obrigada. Até sempre.

Hoje percebi o que queria dizer. Não veio.
Aliso o plástico, remexo no pó, enclausurado.
Porque não veio ela hoje?

A taberneira avisa-me que o autocarro está pronto a partir. Agradeço e saio. Tome cuidado, disse-me por entre benzimentos, roçando no sinal purulento na face. Está a ver o céu? Olho para onde aponta, por trás da serra do Monsanto, magnífica. Um raio de sol rompia no meio das nuvens, dando uma tez vermelha ao céu.
– Coisa boa não se anuncia, cruzes canhoto.
– Não tenha medo, Senhora. Sou eu que encomendo as almas ao inferno e hoje não é o seu dia.

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Página: Carcavelos

Paula

Quarta-feira, Julho 1, 2009

Um dia conheci-a. Triste. Olhos mortiços.

Fui apanhada na curva da vida, dizia-me.
Ao contrário da minha própria mãe, por exemplo, vi-lhe quase sempre uma expressão alegre, voluntariosa. Amava os filhos e o marido, amava a vida e o que vivia… ou assim pensava eu.

A filha era minha conhecida. Conhecida porque não a considerava bem minha amiga. Era caprichosa. E mimada. Achava eu.

Um dia, tinha perto de quinze anos, fui lá a casa. Gostava da D. Paula eu.

A filha não estava.

Gostava de mim a D. Paula. Achou-me uma mulherzinha e deu-se, nesse dia, por entre chávenas de chá, a minha primeira conversa de mulherzinha.

Não nasci para ter marido, atirou assim. Nem filhos. Nasci para viver sozinha, para estar sozinha.

Casar, ter os meus filhos, contentar-me com um emprego de porcaria, uma vida de porcaria. Foi um erro. Foi tudo um erro.

E sabes o pior? Criei dois monstros! Criei um marido que se acha o melhor. Porquê? Porque lhe digo isso todos os dias. Os meus filhos? Porque os amo mais que tudo, mais que a vida. Porque os convenço que somos todos maravilhosos. E quem me convence a mim? Quem me diz que sou boa? Ninguém. Porque não sou, sabes.

Fiquei estarrecida. Tanta confiança me demonstrava. A mim, sempre tão medrosa e insegura e estupidamente modesta.

Não me olhes assim minha querida, vendo-me de chávena parada no ar. É verdade. Construo a mentira para todos e sou muito convincente nisso.

A verdade, minha querida, é que não nasci para ser casada. Não nasci para ser mãe. Não nasci para viver com gente.

Eu merecia uma vida melhor. Eu merecia um marido melhor e uns filhos melhores.

Mas também os meus filhos e o meu marido mereciam alguém melhor.

A conversa não acabou com grandes conselhos sobre a minha vida ou o meu futuro, porque não tinha nenhuns.

Apenas foi a minha primeira conversa de cozinha… de mulherzinha. De um mundo que não conhecia. O da mentira piedosa. Da mentira que às vezes as mães, mulheres, heroínas, vencidas da vida, recorrem. Daquelas tão profundas, sabem?, que descobrimos que não podemos contar a ninguém. Sem querer, tornei-me amiga daquela colega – confesso – para poder estar mais próxima da D. Paula. E depois confesso também , tornei-me mis atenta s suas reacções. E vi-lhe, depois, só depois de já saber, tantas vezes os olhos trites que disfarçava sob o cansaço. O sorriso que escondia as lágrimas, o carinho solitário.

Um dia ganhei coragem e perguntei-lhe porque não se desfazia daquilo tudo? Porque não procurava uma vida melhor, que tinha direito, sabe?

Sei, minha querida, claro que sei. E sei também que não conseguiria. Esta casa, apesar de não saber, precisa de mim. Fui eu que criei esta situação. Fui eu.

E, depois, minha querida, se apenas por um dia, um minuto, alguém descobrir que eu sou miseravelmente infeliz, se alguém sequer desconfiar, vai tornar inútil todo estes anos de fingimento e de dor atroz, não achas?

Concordei com ela.

De todos os que me afastei quando mudei de casa foi a D. Paula de quem senti mais falta.

Convidei-a para o meu casamento e fui a única que percebi porque chorou tanto. E não disse a ninguém.

Porque conto isto hoje?

Porque ela mudou-se de terra, o marido deixou-a, disse que achou alguém mais novo mas não melhor, os filhos estão também casados e cada um com a sua vida,

ela?

Disse-me que estava sozinha, de olhos sorridentes. Finalmente sozinha… e foram as palavras mais felizes que lhe ouvi alguma vez dizer.

Porque o nome é inventado.

Porque lhe pedi.

Podes escrever sim. Mas não te preocupes, disse-me. A minha história é tão mirabolante que ninguém acreditará nela. Dirão todos que é mais uma daquelas tuas histórias.

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Página: Wouddabe